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Eleição deste domingo no Peru deixa direita sul-americana em pânico

Com mudanças políticas no Chile e protestos na Colômbia, forças conservadoras temem fortalecimento do eixo de esquerda na região caso o candidato Pedro Castillo vença

Keiko Fujimori, candidata que representa a direita, e Pedro Castillo, nome da esquerda, durante debate no dia 30 de maio Foto: SEBASTIAN CASTANEDA / REUTERSKeiko Fujimori, candidata que representa a direita, e Pedro Castillo, nome da esquerda, durante debate no dia 30 de maio Foto: SEBASTIAN CASTANEDA / REUTERS

O GLOBO

LIMA – Na esteira dos protestos e transformações políticas no Chile, da onda de manifestações contra o governo de Iván Duque, na Colômbia, da eleição de Luis Arce, do Movimento ao Socialismo (MAS), na Bolívia, e do enfraquecimento da oposição liderada por Juan Guaidó e Leolpoldo López na Venezuela, a eleição presidencial deste domingo no Peru causa pânico em setores de direita sul-americanos.

Se o candidato de extrema esquerda Pedro Castillo, do partido Peru Livre, conseguir derrotar a conservadora Keiko Fujimori, do Força Popular, o Peru se uniria a uma frente de governos esquerdistas num momento de crescente tensão social na região.

O governo do presidente Jair Bolsonaro, confirmaram fontes brasileiras e peruanas, aposta na filha do ex-presidente Alberto Fujimori (1990-2000), envolvida em processos de corrupção. Um dos principais assessores de Keiko é o ex-chanceler Francisco Tudela, antigo conhecido do Itamaraty. Em entrevistas a jornais locais, Tudela afirmou que Castillo significaria a destruição da democracia peruana, e que representa “o socialismo do século XXI”.

É público o vínculo do candidato do Peru Livre com o MAS e com o governo de Nicolás Maduro. Uma das primeiras consequências da eleição de Castillo seria a saída do Peru do Grupo de Lima, criado por iniciativa de Lima para pressionar pela recuperação da democracia na Venezuela.

A Argentina de Alberto Fernández já abandonou o grupo e hoje está entre os países que defendem uma solução negociada para a crise venezuelana, que inclua a participação do governo chavista —  em sintonia com vários outros governos, entre eles o de Joe Biden. Fernández foi ainda mais longe, e retirou seu país da denúncia apresentada por vários países e pela Organização de Estados Americanos (OEA) contra o Estado venezuelano no Tribunal Penal Internacional, em Haia, em 2018, por supostos crimes de lesa-Humanidade.

‘Revés doloroso’

Se Castillo vencer, Maduro provavelmente será convidado para a posse, além das mais altas autoridades do governo cubano, que têm forte vínculo com Vladimir Cerrón, polêmico fundador do partido de Castillo e, como Keiko, envolvido em processos de corrupção. Para a oposição venezuelana, seria um revés doloroso, em meio a um processo global de revisão do reconhecimento ao “governo interino” de Guaidó. Isso explica por que López e sua mulher, Lilian Tintori, foram até Lima fazer campanha por Keiko.

—  Estamos vindo do futuro e no futuro, se for implementado um modelo como este, o que vem por aí é escuridão, fome, desolação e tristeza. Não queremos isso para o Peru, queremos uma democracia forte, sólida —  declarou López em evento na capital peruana. —  Com toda a humildade, lhes pedimos que melhorem sua democracia e não permitam que uma proposta autoritária, que promove a violência, o confronto, a divisão, destrua todo um país — discursou o líder opositor venezuelano.

 

Em Lima, comenta-se que López chegou ao país por iniciativa do escritor Mario Vargas Llosa, que nesta eleição engoliu seu fervente antifujimorismo em nome de evitar o que considera um mal muito maior para o Peru. O principal respaldo a Keiko vem de empresários e políticos conservadores. Nesses setores, as propostas de Castillo, entre elas a de reformar a Constituição de 1993, causa estupor.

O conturbado cenário político e social no Chile e na Bolívia gera em muitos peruanos o temor de que o Peru seja a próxima bola da vez. Em sua campanha, Keiko adotou um clássico perfil populista, ofereceu mundos e fundos aos setores populares arrasados pela crise econômica e pela pandemia, mas deixou bem claro que não mudará uma vírgula do modelo peruano. Como o chileno, trata-se de um modelo profundamente desigual.

Nova dinâmica

O Brasil teme, por exemplo, pelo futuro do acordo de facilitação de comércio entre os dois países, já ratificado em Brasília, mas ainda à espera de um sinal verde do Congresso peruano. Castillo não demonstrou ser especialmente antibrasileiro ou antibolsonarista na campanha, mas sua proximidade com países como Bolívia, Venezuela e Cuba basta para entender o que a vitória do candidato do Peru Live significaria para a dinâmica política regional.

Keiko, em palavras de um diplomata brasileiro, “é mais previsível”. A opinião de governos como os do Brasil e da Colômbia é de que o modelo peruano precisa de ajustes, mas não ser dinamitado, como acreditam que aconteceria com Castillo. A filha de Fujimori representa a continuidade do modelo e uma posição mais pragmática, segundo um diplomata peruano. Já o candidato da esquerda é uma grande incógnita, respaldada cegamente, segundo ele, por uma esquerda latino-americana que busca recuperar influência no continente.

A decisão da ex-candidata presidencial Veronika Mendoza, da esquerda social-democrata, de se aliar a Castillo no segundo turno buscou dar um toque de moderação ao discurso e à plataforma do candidato. No entanto, em Lima, jornalistas, políticos e analistas apostam que, se for eleito, Castillo se unirá a uma frente regional de esquerda —  governos, partidos e movimentos sociais —  que hoje se sente fortalecida e aposta em mudanças radicais.

Na semana de encerramento da campanha, o candidato do Peru Livre recebeu uma declaração pública de apoio do ex-presidente do Uruguai José Pepe Mujica:

— Você tem um desafio grande pela frente. Fico feliz por ter te conhecido e saber que na pátria grande tem gente que a defende, vejo que você está cheio de esperança — disse Mujica.

A troca de elogios ocorreu no intitulado “Encontro de mestres”, organizado na rede social Facebook. Na Conversa, Mujica pediu a Castillo que não “caia no autoritarismo”. Esse é, de fato, um dos temores de seus adversários, dentro e fora do Peru: a repetição do modelo de concentração de poder em nome da defesa da democracia.

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