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Dica Netflix -Gloria é um retrato honesto e intenso de uma mulher real tentando descobrir onde se encaixar no mundo

Filmes cuja narrativa linear apresenta uma história que obedece sempre ao mesmo padrão, repleta das subtramas que já vimos a mancheias em produções anteriores, têm de encontrar um meio de se sobressair, de levar ao espectador a ideia clara de que merecem ser apreciados. Seja pela forma como se desenrola o enredo, seja pela afinação do elenco ou, especialmente, pelo carisma da personagem central.

“Gloria” tem tudo isso. O filme do diretor Sebastián Lelio, que conferiu a Paulina García o Urso de Prata de Melhor Atriz no Festival de Berlim, em 2013, quando foi lançado, é, no mais, quase igual a tudo o que já se viu sobre mulheres de meia-idade que não se rendem à força das circunstâncias e vão às últimas consequências a fim de recomeçar. A propósito de recomeço, Lelio teve a excelente ideia de usar a conjuntura política do Chile daquele ano para realçar em sua personagem-título o choque diante de um mundo em que parece não se reconhecer — e que a repele também.

Gloria está divorciada há mais de uma década, e, sem nem perceber, faz questão de manter a rotina de um tempo já morto. Vai e volta do trabalho cantando enquanto dirige, toma conta do pequeno apartamento em que mora sozinha, auxiliada por Victória, personagem de Luz Jimenez, presta alguma assistência aos filhos, Ana e Pedro, vividos por Diego Fontecilla e Fabiola Zamora, já adultos, se preocupa com a otite do neto, Raimundo, filho de Pedro, frequenta as festas para cinquentões nos clubes que rescendem a uma doce nostalgia. E é numa dessas que conhece Rodolfo, o sessentão igualmente solitário de Sergio Hernández.

O mote da mulher vivida, independente, dona do próprio nariz, mas que por uma ou outra razão não consegue dar vazão a seus sentimentos tende a suscitar no público boas reflexões, de um jeito leve, mas também pontuado por entrechos dramáticos  ou melodramáticos. “Paris Pode Esperar” (2016), de Eleanor Coppola, é um dos filmes mais originais do cinema ao transpor para a tela o pressuposto do deslocamento físico, quiçá uma fuga, para falar da necessidade de se empreender mudanças mais profundas. Oscilando diligentemente tanto para a comédia romântica como para o drama, “Gloria” se respalda em Paulina García para deixar irrefutável à audiência a banalidade da vida da protagonista, mesmo em situações bastante sui generis, como a convivência com o vizinho esquizofrênico que a atormenta com ataques a interlocutores imaginários no meio da noite  e cujo gato sphynx vai visitá-la todos os dias, sem convite  ou as aulas de ioga ministradas por Ana.

O namoro com Rodolfo seria uma chance de virar o jogo com honradez, já na segunda metade do jogo, mas ainda a tempo. García denota com muita sutileza, mas sem margem para contestação, o semblante vitorioso de Gloria quando comparece ao jantar pelo aniversário de Pedro acompanhada do novo companheiro, que vai dando indícios de não estar assim tão comprometido com ela, uma esfinge nada misteriosa, e até muito previsível, que ela sempre decifra  e talvez seja esse seu mal, além, evidentemente, de ter topado justo com um sujeito imaturo, incapaz de romper de todo com a ex-mulher invasiva e as filhas controladoras e, o pior, covarde. A forma inaceitável que escolhe para manifestar a impossibilidade de se dar só para Gloria revela muito de sua personalidade infantil, e a vingança da ex-namorada, igualmente nada digna de uma mulher adulta  mas que ninguém é capaz de condenar, pelo primarismo de uma inconsequência saborosa já teria valido a viagem.

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