CulturaFixo

Chico Buarque lança primeiro livro de contos e mostra obra coesa ao retratar Brasil atual

Previsto para chegar às livrarias no próximo dia 22, “Anos de chumbo e outros contos” marca a estreia de Chico na narrativa curta
O escritor, cantor e compositor Chico Buarque Foto: Bob Wolfenson / Agência O Globo
Nunca foi tão curto o tempo entre um livro de Chico Buarque e o lançamento do seguinte: dois anos. Torna-se tentador imaginar “Anos de chumbo e outros contos” como uma espécie de continuação do anterior, “Essa gente”, que traçou um retrato explícito do Brasil sob Jair Bolsonaro — de sua eleição em 2018 e do início de seu governo em 2019. E há sinais disso nas duas primeiras histórias e um pouco na terceira. Porém, embora possa ser visto como um livro também político, é, antes de tudo, um livro literário, se a redundância for perdoável.

Ao publicar, pela primeira vez, um volume de narrativas curtas — previsto para chegar às livrarias no próximo dia 22, junto com uma edição especial de “Estorvo”, primeiro romance do autor —, Chico cumpre um destino que era, pode-se dizer, incontornável. Não faz sentido ainda ficar comparando o compositor com o escritor, pois o segundo já mais do que provou ser excelente — e o primeiro é insuperável. Mas alguém que, como letrista, sabe condensar universos em versos, não podia deixar de exercer seu poder de síntese também na prosa. Após seis romances, a hora chegou. Valeu a pena esperar.

Apenas o conto-título, que encerra o livro, poderia, se muito esticado, tornar-se uma novela. Mas sua força está em ter apenas 12 páginas. O desfecho é surpreendente e sufocante. E a opção de esticá-lo reforçaria a confusão de ver Chico como um criador político apenas porque ele assume posições políticas. Ao tratar dos “anos de chumbo” da ditadura militar, o autor é refinado sem deixar de ir direto ao ponto, como exemplifica o trecho reproduzido nesta página.

Os oito contos se bastam, não têm arestas. Rubem Fonseca dizia que escrever contos é mais difícil do que escrever romances e que a poesia é a tarefa mais dura, por exigir maior síntese. Chico afirma não ser poeta por não escrever poemas, mas sempre mostrou, nas letras de canções, dizer muito com pouco.

Diversão com amargor

Livro de Chico Buarque " Anos de chumbo e outros contos " Foto: Divulgação
Livro de Chico Buarque ” Anos de chumbo e outros contos ” Foto: Divulgação

A primeira história, “Meu tio”, traz uma figura facilmente encontrável por aí. Desrespeita qualquer regra de vida coletiva, humilha pobres e, com seu carrão, voa por avenidas do Rio. O tipo é banal, mas o enredo não é: desvela-se aos poucos a perversidade — não só dele — de sua relação com a sobrinha.

“O passaporte” é divertidíssimo, mas tem seu lado amargo. Apesar de ser narrado em terceira pessoa, “o grande artista” pode muito bem ser o próprio Chico, o homem famoso de esquerda detestado pelos truculentos de direita. Quando o odiado passa a odiar, provoca um grande estrago. Mais uma vez, o Brasil de hoje.

Em “Os primos de Campos”, há polícia violenta, milícias, bandeiras brasileiras… Ou seja, cenas da atualidade. Mas também há algo permanente, que é a questão racial, resumida, por exemplo, na dificuldade de se afirmar quem é negro e quem não é no país. Para não haver dúvida, todos se ferram.

O Rio como cenário

Seis dos oito contos se passam no Rio. “Cida” acontece no Leblon, mas a protagonista é o lado que o bairro não gosta de mostrar: mulher miserável que vive da bondade, às vezes cruel, de estranhos. O humor está na sua mente delirante, mas é real a filha que gera. Novamente presente, a questão racial aparece no final de forma imprevisível.

Delirante também é “Copacabana”, em que o narrador adolesce nte — ou que se diz um, pois nada é verossímil — mistura Pablo Neruda, Walt Disney, Ava Gardner, Richard Burton, Romy Schneider e o chefe do tráfico do Morro da Babilônia. A galeria de personagens faz lembrar “PanAmérica”, de José Agrippino de Paula, mas o delírio não chega a tanto.

O ponto de partida de “Para Clarice Lispector, com candura” é, aí sim, algo vivido pelo próprio Chico Buarque. Ele, muito jovem, foi algumas vezes à casa da escritora, que pode ter desenvolvido um sentimento maternal. No conto, porém, o personagem se torna obcecado por Clarice e começa a publicar textos na internet como se fossem dela — algo que muita gente faz. Humor e aflição andam juntos outra vez.

Em “O sítio” há muito mais aflição do que humor. A trama começa no Rio, mas migra para o campo durante a pandemia (“a peste”). O que se imaginava uma temporada curta vira um período maior, aumentando também o ciúme, a tensão e o desalento. A construção é muito rigorosa, como atestam os momentos de suspense.

Quando lido de uma vez só, “Anos de chumbo e outros contos” evidencia como é uma obra diversificada, em enredos e climas, e também coesa por deixar clara a assinatura do autor.

É um retrato do Brasil, novamente, mas não tão cravado nos tempos de hoje quanto o de “Essa gente”. Os quadros são menores, precisos, contundentes. O Chico contista nasce maduro.

Leia trechos

“Ele não podia adivinhar que naquele instante um curioso abria um passaporte abandonado junto com o cartão de embarque na bancada da pia do banheiro. O indivíduo mal acreditou ao ver nos documentos o nome e as fuças do grande artista que ele mais detestava. De imediato detestou a ideia de que a celebridade fosse tomar champanhe em Paris, viajando no mesmo avião que ele. Pressentindo que o canalha voltaria ao banheiro a qualquer momento, num reflexo atirou passaporte e cartão na lixeira embutida na pia.”  (“O passaporte”)

“Levantou-se, andou de lá para cá na penumbra, chamou baixinho seu nome, espiou a cozinha, o corredor, foi até o hall de entrada, e quando abriu a porta para ir embora, uma ventania escancarou a janela da sala e levantou as cortinas. Como que surgida por trás das cortinas, Clarice Lispector o chamou para ver como era bela a sua fatia de mar por entre as paredes de edifícios. No breu da noite, ele não só viu a espuma branca das ondas, como respirou a maresia combinada com o cheiro de banho dos cabelos dela.”  (“Para Clarice Lispector, com candura”)

“O major explicava à minha mãe que esses delinqüentes, tanto homens quanto mulheres, ficavam horas pendurados numa barra de ferro, mais ou menos como frangos no espeto. Daí meu pai ensinava à sua equipe como introduzir adequadamente objetos naquelas criaturas. Ele enfiava objetos no ânus e na vagina dos prisioneiros, e aquelas palavras eu não conhecia, mas adivinhava, senão pelo sentido, pela sonoridade: não podia ser mais feminina a palavra vagina, enquanto ânus soava a algo mais soturno.” (“Anos de chumbo”)

 

Mostrar Mais
Botão Voltar ao topo