DestaquesNotíciasTecnologia

Via Láctea deve ter hoje ao redor de 36 civilizações, palpitam astrônomos

Planetas candidatos a abrigar civilizações não faltam na Via Láctea. PHL_UPR

Salvador Nogueira

Quem não ama estimativas de quantas civilizações como a nossa, capazes de potencial comunicação interestelar, existem lá fora? Tem uma nova dessas na praça e ela conclui… (que rufem os tambores!) …que há neste momento, na Via Láctea, um mínimo de 36 sociedades alienígenas comunicativas. Levando em conta a margem de erro das estimativas, esse número mínimo pode ser qualquer coisa entre 4 e 211.

Foi o que concluíram Tom Westby e Christopher Conselice, da Universidade de Nottingham, em artigo recém-publicado no periódico The Astrophysical Journal. Ele se junta a uma ilustre lista de estudos que, ao longo das últimas seis décadas, tentaram estimar a probabilidade de esforços de escuta por sinais de inteligência extraterrestre (busca conhecida pela sigla inglesa Seti), mesmo sem ter qualquer referência clara das probabilidades envolvidas no surgimento da vida em um planeta, sua evolução para a inteligência e a aquisição da capacidade de comunicação interestelar, combinada ao tempo que uma civilização persiste com essa capacidade e esse interesse. É gentil dizer que todos eles chegaram a formular algo mais que um palpite minimamente informado, e com este não estamos em terreno novo. O novo resultado continua sendo tão bom quanto qualquer outro obtido ao longo das últimas décadas.

A brincadeira começou em 1960, quando o astrônomo americano Frank Drake escreveu a equação que acabaria ganhando seu próprio nome, empilhando fatores envolvidos nesse cálculo, como o percentual de estrelas que têm planetas, o percentual deles que desenvolve vida, o percentual em que a vida se torna inteligente, e assim por diante.

O trabalho de Westby e Conselice é justamente uma adaptação da Equação de Drake, à luz de um conceito que eles definem como o Princípio Copernicano Astrobiológico.

“Rederivamos uma versão moderna de uma equação com a de Drake ao primeiro adotarmos a premissa simples de que um planeta suficientemente similar à Terra na zona habitável de uma estrela adequada que exista por um tempo suficientemente longo irá formar vida num padrão similar ao que ocorreu na Terra”, escreveram os autores.

Peraí, como é que é? Esse postulado esconde um universo inteiro de mistérios não respondidos, varrendo tudo para debaixo do tapete. Não temos a mais vaga ideia de se a Terra é um “exemplo típico” do que acontece com um planeta como a Terra quando atinge a idade da Terra. Não sabemos se, em condições como as da Terra, a vida precisa de meio bilhão de anos para surgir e deixar sua marca (como foi o caso aqui) e, depois disso, precisa de mais 4 bilhões de anos para desembocar em alguma forma de vida capaz de produzir radiotelescópios e fake news. Temos apenas um exemplo — o nosso –, e é impossível extrair estatísticas com base em um único caso. Há quem diga que o fenômeno da vida é extremamente fortuito e que só aconteceu na Terra por pura sorte, sem se repetir em qualquer outro lugar, e há quem diga que a Terra pode ter sido uma espécie de “atrasilda” na corrida para a vida complexa e inteligente, algo que poderia ter ocorrido muito mais depressa. Para não perder muito tempo especulando sobre o que se desconhece, os pesquisadores decidiram partir do princípio estabelecido desde Copérnico (ao tirar a Terra do centro do universo) de que nosso planeta não tem nada que o faça especial e, com isso, tratá-lo como um exemplo típico do que acontece a um mundo que se vê nas mesmas circunstâncias dele.

Isso se traduziu mais ou menos da seguinte maneira: todo planeta em circunstâncias paralelas da Terra que atingir 5 bilhões de anos vai em algum momento de sua existência posterior desenvolver uma civilização comunicativa (o que eles chamaram de Limite Copernicano Astrobiológico Fraco) ou, sendo mais restrito, que todo planeta em circunstâncias paralelas da Terra vai desenvolver uma civilização comunicativa quando esse mundo estiver com idade entre 4,5 bilhões e 5,5 bilhões de anos (o que eles chamaram de Limite Copernicano Astrobiológico Forte).

Um fator de ignorância que a dupla de Nottingham não eliminou, ao reescrever a equação de Drake, foi o tempo médio de vida de uma civilização comunicativa. E, claro, não sabemos quanto tempo é isso. Nossa única referência é a nossa própria civilização, que tem a tecnologia para enviar sinais para fora de seu planeta há cerca de 100 anos. Os pesquisadores então adotaram esse número como uma estimativa segura. Sabemos que com certeza uma civilização comunicativa pode viver 100 anos.

Misturando todos esses fatores na Cozinha Maravilhosa de Drake, eles chegam aos resultados, para os cenários fraco (mais otimista) e forte (mais pessimista).

Pelo cenário fraco, eles chegam a um total de 928 civilizações comunicativas na Via Láctea hoje. Com as margens de erro embutidas nas estimativas, esse número poderia ser qualquer um entre 110 e 2.808. E a distância média entre civilizações poderia ser de 3.320 anos-luz, aproximadamente.

Pelo cenário forte, já apresentamos os números lá em cima: 36 civilizações comunicativas, podendo na verdade ser qualquer número entre 4 e 211. E aí a distância média entre civilizações seria de cerca de 17 mil anos-luz.

Agora, não se espante com os números. Nos dois casos, é uma péssima notícia. Eles sugerem que, para todos os efeitos práticos, a busca por inteligência extraterrestre (Seti) é uma perda de tempo. Eles calculam que, no cenário fraco, ela teria de ser conduzida por cerca de mil anos antes de produzir resultados positivos. Saltando para o cenário forte, estamos falando em 6 mil anos. Parece uma batalha perdida antes mesmo de ser travada, ainda mais para civilizações comunicativas que duram 100 anos. Mesmo que a gente recebesse um “olá!” hoje, da civilização mais próxima (pelo cenário fraco, 3.000 anos-luz daqui), até a gente disparar um “olá!” de volta e eles receberem, terão se passado 3.000 anos e eles provavelmente estarão extintos antes de detectarem o sinal de volta. E quem vai mandar uma mensagem se não há qualquer esperança de receber uma resposta, ainda que ela seja ouvida por alguém?

Há, é claro, uma óbvia pegadinha nessas conclusões todas. Elas partem do princípio de que civilizações comunicativas vivem em média apenas cem anos. A exemplo da equação de Drake original, a nova versão de Westby e Conselice é extremamente sensível a esse fator, numa proporção direta. Se o tempo médio de existência de uma civilização comunicativa for de 200 anos, em vez de 100, o número de sociedades na Via Láctea dobra. Se for 1.000 anos, aumenta dez vezes. E, óbvio, a distância média da civilização mais próxima e o tempo de busca até o primeiro contato também caem proporcionalmente.

Ao final do artigo, a dupla rapidamente entretém essas possibilidades. Imagine, por exemplo, que na verdade civilizações comunicativas, uma vez que surjam, durem 1 milhão de anos. Nesse caso, teríamos uma Via Láctea com jeitão de Star Trek: a civilização alienígena mais próxima estaria a uma distância entre 20 e 300 anos-luz daqui, e aí um primeiro contato poderia acontecer a qualquer momento.

Agora, uma civilização tão longeva assim estaria muito distante de qualquer experiência que humanos tenhamos tido. Nossa espécie, desde as cavernas, tem coisa de 200 mil anos. E, em termos de história registrada pela escrita, coisa de 4.000 anos. Está além da imaginação especular o que seria uma civilização de 1 milhão de anos.

Trazendo para algo mais imaginável, eles também fazem o exercício para um tempo de vida médio de 2.000 anos para uma sociedade comunicativa. Nesse caso, a civilização mais próxima deve estar a uma distância entre 400 e 7.000 anos-luz, e um sucesso por buscas do tipo Seti seria difícil, mas não impossível.

“Se não encontrarmos vida inteligente num raio de cerca de 7.000 anos-luz”, dizem os autores, “isso indicaria uma de duas coisas. A primeira é que o tempo de vida de civilizações deve ser bem menor que 2.000 anos, sugerindo que a nossa pode ser também bem curta. A segunda é que a vida na Terra é bem singular, e a vida inteligente não surge automaticamente após 5 bilhões de anos num planeta adequado, mas em um processo mais aleatório.”

O artigo deles termina em uma defesa dos esforços que tentam detectar sinais de inteligência extraterrestre, como “um modo científico e probabilístico de determinar quanto tempo a civilização na Terra provavelmente vai durar, ou os métodos pelos quais a vida se desenvolve”. “Se não encontrarmos vida em um raio de 10 mil anos-luz, por exemplo, isso seria um mau sinal para o tempo de vida de civilizações, presumindo que exointeligências sejam similares às nossas ou, em outras palavras, que o Princípio Copernicano Astrobiológico se sustente.”

Resumo da ópera? Não sabemos o suficiente, e esse esforço, assim como todos que o antecederam antes dele desde a formulação original da Equação de Drake, são muito mais medidas do quanto nós ainda não sabemos do que do quanto de fato sabemos sobre a natureza da vida e da inteligência. A única real forma de aprendermos mais é continuando a explorar e a estudar todos os fatores envolvidos, da química prebiótica à sociologia pós-atômica, usando para isso os laboratórios e telescópios que somos no momento capazes de construir, até que o quadro se torne mais claro.

Quanto ao trabalho de Westby e Conselice, achei divertido ver que os números a que eles chegaram acabaram relativamente parecidos com os que eu produzi em minha própria “solução” especulativa da equação de Drake, publicada em 2014, partindo de pressupostos similares que usavam a Terra como referência “copernicana”, mas sem alterar a formulação original de Drake. Lá, eu cheguei a 4 civilizações comunicativas. É um pouquinho menos que as 36 de Westby e Conselice, mas eu excluí da conta as estrelas anãs vermelhas, que perfazem 76% do total na Via Láctea. Se eu as tivesse incluído (como o faz a dupla de Nottingham), eu teria chegado a 20. Quando você pára para pensar que há variação possível de pelo menos umas 10 ordens de grandeza em respostas da Equação de Drake, são dois resultados extremamente próximos. O que não faz deles mais corretos, mas mostra que tem mais gente seguindo calibragem similar nos palpites que preenchem as lacunas do conhecimento.

Mostrar Mais
Close
Close