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Trump quebra tradição pela 4ª vez ao não comparecer à posse de Biden

Todas as outras quebras de protocolos de presidentes americanos ocorreram no século 19

Marina Dias

FOLHA DE SÃO PAULO

A 12 dias do fim de seu mandato como presidente dos EUA, Donald Trump quebrou mais um protocolo: anunciou que não irá à posse de seu sucessor, o democrata Joe Biden. Ainda que tenha precedentes, a ruptura nessa tradição ocorreu apenas outras três vezes na história do país, todas elas no século 19.

A Constituição americana afirma que o mandato do presidente expira ao meio-dia de 20 de janeiro, quatro anos depois de sua posse, dando lugar ao vencedor da última eleição. O respeito às tradições democráticas implica em comparecer à cerimônia, uma demonstração de transição pacífica.

A decisão também contraria o discurso mais recente do próprio Trump, que na noite desta quinta (7) publicou na rede social vídeo no qual afirma que seu foco agora é garantir uma transferência tranquila de poder. O presidente, pressionado pela possibilidade de afastamento e por seguidos pedidos de demissões em seu governo, fez uma fala em que citava “reconciliação” e “cicatrização”. Não durou 24 horas.

O presidente dos EUA, Donald Trump, antes de discursar para apoiadores em WashingtonO presidente dos EUA, Donald Trump, antes de discursar para apoiadores em Washington – Brendan Smialowski – 6.jan.21/AFP

E a rara quebra de protocolo também permite um olhar histórico pouco animador para Trump, que cogita lançar sua campanha à Casa Branca para 2024.

Nos três casos do passado, os presidentes que assumiram o cargo sem a presença do antecessor na posse não só exerceram gestões de muito apoio popular como conseguiram se reeleger com facilidade.

O primeiro a deixar de comparecer à cerimônia de estreia do sucessor foi John Adams, o segundo presidente dos EUA. Advogado e diplomata, ele governou o país de 1797 a 1801 e não quis passar o bastão pessoalmente a Thomas Jefferson, que era seu vice e rival político —à época, presidente e vice eram eleitos separadamente, o que muitas vezes resultava em perfis antagônicos no comando do país.

Adams tinha sido vice de George Washington e enfrentou uma campanha duríssima ao tentar a reeleição, em 1800. Alvo de insultos por parte da imprensa e de adversários, que o chamavam de monarquista, foi acusado de infidelidade conjugal e viu a opinião pública voltar-se contra ele por suas leis que restringiam atividades de estrangeiros e limitavam a liberdade de expressão e de imprensa no país.

Adams ficou em terceiro lugar de uma disputa confusa, que terminou em empate entre Jefferson e Aaron Burr. A decisão nesse caso fica nas mãos da Câmara dos Representantes, e Jefferson chegou a pedir que Adams, então presidente, interferisse no processo, o que não aconteceu.

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Quase três décadas depois, em 1829, outro filho de Adams, John Quincy Adams, repetiu o gesto do pai e não foi à posse de seu sucessor, Andrew Jackson. Os dois já haviam disputado a eleição anterior, da qual Quincy Adams saiu vitorioso, mas Jackson prometeu revanche e, durante todo o mandato do presidente, foi um de seus opositores mais ferrenhos.

Adams queria implementar um ambicioso programa de modernização do país, que incluía a abertura de estradas, canais e universidades. Parte disso foi concretizado, porém, sob investidas e críticas duras por parte de Jackson, quase sempre na direção contrária da Casa Branca.

Mesmo com as tensões políticas, Adams tentou manter relações cordiais com o adversário, sem sucesso, e deixou Washington na noite de 3 de março, véspera da posse de Jackson.

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O último e até agora mais recente presidente americano a não aparecer na posse de um sucessor é Andrew Johnson. E isso já faz mais de 150 anos. Johnson assumiu a Presidência depois do assassinato de Abraham Lincoln, de quem era vice, e comandou o país de 1865 a 1869.

Controverso, assim como Trump, foi o primeiro presidente dos EUA a sofrer um processo de impeachment, mas foi absolvido pelo Senado, também como Trump, em 1868.

O republicano que hoje ocupa a Casa Branca dificultou a transição para Biden, reconheceu a vitória do democrata apenas após a invasão do Capitólio, na quarta (6), e não telefonou ou convidou o adversário para visitar a residência oficial antes da posse, como é praxe entre os líderes na transferência de poder.

Segundo a imprensa americana, o presidente disse a aliados que estuda fazer um comício para lançar sua campanha à Presidência em 2024 bem no dia da posse de Biden, na tentativa de dividir os holofotes.

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