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Milícia de Santa Cruz alicia ex-traficantes para atrair e executar rivais

Um inquérito da Delegacia de Descoberta de Paradeiros (DDPA) concluiu que pelo menos dois traficantes foram executados e tiveram seus cadáveres ocultados

Por dois anos, milicianos e traficantes disputaram à bala o controle das favelas do Rola e Antares, em Santa Cruz, na Zona Oeste do Rio. No fim de 2018, o grupo paramilitar expulsou os rivais e passou a dominar as duas comunidades, que eram os últimos redutos do tráfico no bairro. Desde o início de 2019, não foram registrados mais ataques de traficantes da maior facção do Rio para retomar o território perdido. Investigações da Polícia Civil revelam como a milícia conseguiu manter as duas favelas sob seu domínio: a quadrilha passou a cooptar ex-traficantes para integrar as fileiras do grupo. Esses novos membros, por sua vez, para anular possíveis ameaças e conquistar a confiança da milícia, começaram a atrair os seus ex-comparsas para emboscadas.

 

Um inquérito da Delegacia de Descoberta de Paradeiros (DDPA) concluiu que pelo menos dois traficantes foram executados e tiveram seus cadáveres ocultados após serem atraídos para a Favela do Rola por Felipe Ferreira Carolino, o Zulu — ex-traficante que, após a invasão, virou um dos principais homens de guerra da milícia. Raphael Phelipe de Almeida Queiroz Braga, de 24 anos, nunca mais foi visto depois que deixou seu filho na casa da avó, na tarde do dia 23 de outubro de 2018, e partiu em direção a Favela do Rola. Raphael havia feito parte do tráfico e já trabalhou na boca de fumo cujo gerente era Zulu. Testemunhas contaram em depoimento à DDPA que o jovem foi ao local encontrar o miliciano.

 

 

Na ocasião, ele receberia um pagamento por ter roubado um carro e entregue na favela no dia anterior. A “missão” foi encomendada a Raphael por outro ex-traficante que “virou a casaca”, Matheus da Conceição Souza, o Bodô, que era amigo da vítima. Segundo o relatório final da investigação, o pagamento fazia parte de um plano arquitetado por Zulu para atrair Raphael para a favela.

 

Zulu cirou homem da guerra da milícia Zulu cirou homem da guerra da milícia Foto: Divulgação

No dia seguinte ao desaparecimento, Jeferson Lins da Silva, o Tota, amigo da vítima que também havia participado do roubo de carro, foi à favela perguntar sobre o paradeiro de Raphael. Segundo a investigação, Tota também foi capturado pelos milicianos. Os amigos foram executados juntos. Quando foram à favela tentar encontrar o cadáver de Raphael, parentes foram aconselhados por Bodô a “não procurar mais pelo corpo, pois teria sido muito bem feito”. Ao fim da investigação, Bodô e Zulu tiveram as prisões decretadas pelo juiz Gustavo Gomes Kalil, da 4ª Vara Criminal, pelos dois homicídios.

 

A delegacia já sabe que a milícia fez outras vítimas da mesma forma. Parentes dos demais desaparecidos, entretanto, não procuraram a Polícia Civil.

 

— É muito importante que famílias de desaparecidos dessa região procurem a DDPA. Assim, conseguiremos colocar mais milicianos atrás das grades — pediu a delegada Elen Souto, titular da DDPA.

 

Bodô, um dos acusados de dois homicídios de ex-comparsas

 

Bandido desafiou policiais

 

Felipe Ferreira Carolino, o Zulu, foi preso em maio deste ano por agentes da Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (Draco) em sua casa, em Santa Cruz. Quando foi encontrado, ele tentou fugir, entrando em luta corporal com os policiais. No imóvel, foram encontradas roupas camufladas, um uniforme completo do Batalhão de Operações Especiais (Bope), uma pistola e um drone usado para monitorar comunidades prestes a serem invadidas pela milícia. Quando chegou à delegacia, Zulu disse aos policiais que o prenderam: “Em no máximo um ano estarei na rua”.

 

Antes de ser preso, Zulu tinha suas redes sociais monitoradas pela polícia: ele gostava de se exibir portando fuzis e usando jóias. Após deixar o tráfico e se juntar aos milicianos, Zulu passou a administrar as favelas do Rola e Antares para os paramilitares. Traficantes e suas famílias foram expulsas da favela e se refugiaram na Vila Kennedy, em Bangu. A facção traída pelo ex-traficante jurou vingança e estipulou um pagamento a quem o matasse. Até ser preso, Zulu foi um dos principais responsáveis por arregimentar milicianos para expulsar o tráfico da Praça Seca, em Jacarepaguá.

 

Em setembro, Felipe Ferreira Carolino, o Zulu, foi condenado a 16 anos e seis meses de prisão pelos crimes de porte ilegal de arma e organização criminosa.

 

Ajuda de PMs

 

Uma investigação da Corregedoria apura a ajuda de policiais lotados no 27º BPM à milícia durante a invasão às favelas do Rola e Antares. Uma foto mostra diversos agentes do batalhão lado a lado com o grupo de paramilitares em julho do ano passado. Quatro deles foram identificados: uma cabo — reconhecida pelo cabelo comprido —, dois soldados e um sargento. Uma semana depois, 20 PMs do batalhão — incluindo os quatro que foram flagrados na ação —, foram transferidos do batalhão por decisão do comando da PM.

 

No início de outubro, o tráfico tentou retomar o território perdido. Durante o tiroteio entre traficantes e milicianos, imagens feitas por um helicóptero mostraram que os paramilitares estavam vestidos com fardas idênticas às da PM.

 

Fonte O Extra.

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